Medicalização da Saúde: História, Causas e Casos

Para entender medicalização da saúde, é pre-requisito conhecer, ou pelo menos ter noção, do conceito de saúde e suas implicações. Para hipócrates, considerado pai da medicina e cuja visão médica era racional, comportamental e limitada até onde os olhos vêem tendo em vista a proibição da dissecação de corpos na grécia antiga, o que dificultava o entendimento de anatomofisiopatologia, saúde era equilíbrio. Com o surgimento da medicina moderna, cujo marco é a revolução francesa e a criação de um comitê de saúde formado por médicos e entre eles um químico, surgem as escolas e sociedade de saúde que posteriormente retornaram a serem denominadas como escolas e sociedade médicas. Nesse período, o modelo de formação médica se transforma, as ciências básicas como a anatomopatologia e a química são introduzidas e os hospitais que antes abrigavam pobres, presos políticos, mutilados e pessoas em sofrimento mental, passam a ser exclusivamente instituições de tratamento de doentes e difunde-se o conceito de saúde como ausência de doença. Hoje, a organização mundial da saúde define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de enfermidades.

Nas primeiras décadas do século XX, Abraham Flexner, um bacharel em humanidades que dedicava-se às formas alternativas de ensino em sua instituição denominada Flexner School, ganhou notoriedade pelo grande número de alunos oriundos de sua instituição de ensino na escola médica de Harvard. Flexner foi convidado a produzir relatórios sobre o ensino da medicina, direito e engenharias, e produz o relatório denominado Relatório Flexner, que tomando como parâmetro a escola médica do instituto John Hopkins, demonstra a catástrofe do ensino médico estadunidense à época, voltado em demasia a retórica e não contemplado pelos avanços científicos da época. Flexner, através das ações posteriores a seu relatório, introduz em peso a ciência moderna nas escolas médicas americanas, juntamente com a formação em ciclos.

Desde a reforma flexner, muita coisa mudou. A informação que antes só chegava por meio de instituições e longos cursos de formação, no século XXI está disponível em tempo real para acesso na internet. Até mesmo as barreiras como as linguagens técnicas passaram a serem rompidas, e a postura da sociedade em busca de qualidade de vida e longevidade começou a se traduzir em uma sanitização da saúde. Dentro de um modelo de produção capitalista, saúde, doença, cuidado e cura tornaram-se mercadorias, e o mercado passou a  encontrar meios de aumentar a produção desse capital por meio de novos diagnósticos e tecnologias. O fenômeno da medicalização anda lado a lado com o desenvolvimento científico, é complexo, enraizado, e responsável por exemplo pelas grandes epidemias técnicas/conceituais com aumento abrupto da incidência de enfermidades, e consequentemente de tratamentos e criação de novas drogas em decorrência da adaptação de instrumentos diagnósticos, como o DSM e CID e também pelo desenvolvimento por exemplo de kits diagnóstico cada vez mais apurados.

Como se vê a medicalização ocorre portanto em três dimensões: econômica, com a criação da patologia para se tornar mercadoria; política, como fonte de controle social; e ideológica, como reprodução de ideias, de conceitos, de mitologia, e ocupa seu papel dentro das escolas e da formação médica.

 

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