Um punhado de excelência profissional.

As qualidades que um médico deve possuir para atingir a excelência profissional estão dispostas na literatura em um complexo emaranhado de informações e métodos que tentam sistematizar a relação médico-paciente do início ao fim da consulta médica. Tratarei nesse texto todas essas qualidades como possíveis dificuldades, visto que seria muito restrito avaliar somente as dificuldades pessoais do autor, considerando a pluralidade nas formas de ser, pensar e agir dos aprendizes médicos. Utilizei duas principais fontes para a escrita desse texto. Uma delas é o tratado de semiologia do Swartz, e a outra um artigo intitulado “Seven skills to promote mastery”, do EGNEW, T. R. Além delas, tentarei incorporar observações do dia-a-dia na clínica de meu orientador e docente de Clínica Médica Adriano Teixeira. O texto foi construído com base no modelo de assistência ambulatorial, predominante no Brasil, a despeito de novos modelos como o de HomeCare, para o qual existiriam uma série de peculiaridades.  

Antes da entrada no consultório, inicia-se a jornada em busca do atendimento perfeito. Se disponível, a equipe, conjuntamente com o médico, pode utilizar o tempo de espera do atendimento para negociar uma agenda. É importante que haja conhecimento acerca das razões da visita por toda e equipe, e também a existência de outras questões a serem discutidas no encontro atual. Tal conduta promove maior satisfação aos pacientes e os deixam mais confortáveis, diminuindo a ansiedade do paciente e evitando rupturas por problemas emocionais relacionados ao processo de doença, entidades tensionais, problemas administrativos decorrentes de atividades laborais e necessidade de serviços preventivos. Enquanto isso, o médico deve estar em constante comunicação com a equipe de recepção do paciente disponível para eventuais dúvidas da equipe de recepção, e deve preparar-se para o encontro, desde já percebendo seus próprios sentimentos como pressa, tensão, e dispersão.

É de bom tom que o médico abra a porta e espere pelo paciente, o cumprimentando e recebendo de maneira cordial. Em seguida, pode-se puxar as cadeiras para que o paciente e seus acompanhantes, caso existam, possam se acomodar. Nesse momento, inicia-se o estabelecimento de um dos dois tipos de conexão, à interpessoal. A conexão interpessoal visa desenvolver o suporte da comunicação e geralmente inicia-se por uma pequena interação social, de caráter não-médico. Trata-se de um bom momento para aprender um pouco mais sobre o paciente, além de utilizar o comportamento para demonstrar receptividade a queixa do paciente, utilizando expressões que mantenham o canal de comunicação, prezando pelo contato olho a olho e evitando linguagens corporais não receptivas. O segundo tipo de conexão, a intelectual, vem logo em seguida, e deve assegurar ao paciente o interesse do médico na situação clínica dele. É fundamental que ocorra uma boa transição dos aspectos interpessoais para os aspectos médicos.

Comunicar-se bem é fundamental para fomentar a cura. Para isso, se deve agir com congruência, ou seja, ter autenticidade e levar a queixa do paciente a quem você realmente é, evitando as fachadas. Além disso, é preciso aceitar o paciente como ele é, e mostrar que o que ele pensa tem valor mesmo que em discordância com a opinião médica, entendendo o paciente e sendo sensível a ele e sua experiência. Pacientes com problemas socioeconômicos, emocionais e domésticos podem requerer habilidades extras como saber agir diante de um comportamento negativo durante a entrevista e utilizar a confrontação, focando em áreas que o paciente deve mudar, tomando sempre cuidado com os comportamentos defensivos.

Deve-se realizar uma boa anamnese. Para isso, é preciso entender que a anamnese é uma ferramenta dinâmica, na qual cada história  é diferente e os pacientes devem ser avaliados individualmente mesmo que perguntas padronizadas sejam feitas. Deve-se sentir se a anamnese não está indo bem. Isso pode acontecer quando o paciente não está confortável, quando há uma barreira de linguagem, quando há intimidação, quando há preocupação com a confidencialidade dos fatos, relutância em se abrir na presença de outros membros da família, quando não há capacidade de expressar sentimentos, entre outras. Deve-se deixar o paciente tranquilo e confortável, e técnicas de relaxamento podem ser utilizadas. Em seguida, deve-se realizar um bom exame físico, o qual buscará informações válidas para o aconselhamento da saúde do paciente. O poder do toque é imprescindível em uma consulta médica e as evidências confirmam que, por exemplo, massagem pode aumentar a função imunológica e o toque gentil pode diminuir a dor. No entanto, deve-se ter cuidado com pacientes com históricos traumáticos, como de abuso e associação do toque a dor. Diante da necessidade de despir o paciente para inspeção, percussão e ausculta, deve-se prezar ao máximo pela privacidade do mesmo, cobrindo as partes desnecessárias à aquele momento do exame e anunciando previamente todos os atos que serão realizados. Devemos lembrar que a relação médico-paciente é uma das poucas que em tão pouco tempo conduz a uma exposição tão grande do íntimo do paciente. O examinador deve ser hábil para identificar, analisar e sintetizar a informação acumulada em uma avaliação abrangente. Cabe ressaltar que o exame físico inicia-se desde a entrada do paciente, e que o situamos na entrevista com fins didáticos.

Avaliar a resposta do paciente a doença e ao sofrimento é um passo importante, o qual requer a investigação das pistas compartilhadas acerca da experiência na doença, a escuta do que o paciente diz sobre seu cotidiano, a investigação de como a doença afeta sua personalidade e o que ele pensa sobre o futuro. Pacientes desesperados em decorrência do próprio sofrimento requerem cuidados, atenção e empenho na relação médico-paciente adicionais, e por isso o plano terapêutico deve ser o mais efetivo possível.

Por fim, é bom sorrir. Rir durante a consulta, nas situações cabíveis, de forma espontânea e com contínua avaliação da personalidade e respostas do paciente, é uma excelente estratégia para aumentar o conforto, satisfação e relação para com o paciente. Comentários relativos aos sentimentos e experiência do paciente na sua doença devem ser feitos como forma de garantir uma postura empática. Os recursos disponíveis para o tratamento devem sempre ser deixados claros aos pacientes, prezando pela sua autonomia e lançando mão, por exemplo, de exames complementares quando necessários. Avaliar a resposta do paciente a doença e ao sofrimento. O plano terapêutico deve ser uma construção conjunta da equipe com o paciente e frente a qualquer atitude de desaprovação, vale indagar ao paciente se algo foi feito que o desagradou, demonstrando sinceridade e profissionalismo. Cada paciente é diferente em seu universo biopsicossocial, e para tais peculiaridades não há fórmula de sucesso; esse é um dos motivos pela qual medicina é e conversa com a arte, cabe a nós, futuros médicos, dominá-la (se é que é possível) e percebê-la.

Referências Bibliográficas:

EGNEW, T. R. The Art of Medicine: Seven Skills That Promote Mastery. Federal personnel manual system. FPM bulletin / Office of Personnel Management. United States. Office of Personnel Management, v. 21, n. 4, p. 25–30, ago. 2014.

SWARTZ, M. H. Tratado de Semiologia Médica. [s.l.] Elsevier Brasil, 2015.

 

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